Gladys West, matemática considerada a “mãe do GPS”, morre aos 95 anos
A matemática norte-americana Gladys West, reconhecida mundialmente como a “mãe do GPS”, morreu aos 95 anos. A informação foi confirmada por familiares em uma publicação nas redes sociais e repercutida por veículos internacionais especializados em tecnologia. A causa da morte não foi divulgada.
West teve papel fundamental no desenvolvimento do Sistema de Posicionamento Global (GPS), tecnologia hoje presente em celulares, carros, aviões, navios, aplicativos de mobilidade e em inúmeras atividades científicas, militares e comerciais. Seu trabalho, realizado décadas antes da popularização da tecnologia, ajudou a moldar um dos sistemas mais importantes da era digital.
Reconhecimento e homenagens
A morte de Gladys West gerou manifestações de pesar em universidades, instituições científicas e entre pesquisadores de todo o mundo. A Virginia State University, onde ela estudou, destacou que sua trajetória representa um exemplo duradouro de excelência, inovação e serviço público.
O escritor M.H. Jackson, coautor da autobiografia It Began with a Dream, também lamentou a perda e ressaltou o impacto humano e científico da matemática. Segundo ele, West foi uma mulher humilde, dedicada à família e consciente do valor da educação como ferramenta de transformação social.
Uma pioneira que não imaginava o impacto do GPS
Em entrevistas concedidas anos antes de sua morte, Gladys West revelou que, durante o período em que realizava os cálculos matemáticos que dariam origem ao GPS, não tinha dimensão do impacto global que aquela tecnologia teria.
Segundo ela, o foco estava na precisão do trabalho diário. O objetivo era resolver problemas complexos com exatidão, sem a perspectiva de que, décadas depois, bilhões de pessoas dependeriam desses cálculos para se locomover, trabalhar e se comunicar.
Infância humilde e paixão pela ciência
Gladys West nasceu em Sutherland, no estado da Virgínia, em uma família de origem humilde. A mãe trabalhava em uma fábrica de tabaco, enquanto o pai atuava na ferrovia. Durante a infância, West ajudava na fazenda da família, mas desde cedo percebeu que a educação seria o caminho para mudar sua realidade.
Determinada, conquistou uma bolsa de estudos integral para o então Virginia State College, uma universidade pública historicamente negra. Lá, destacou-se academicamente e se formou como a primeira aluna da turma, um feito raro para mulheres negras na década de 1950.
Formação acadêmica e início na Marinha dos EUA
West se graduou em matemática em 1952 e concluiu o mestrado na área em 1955. Pouco tempo depois, foi contratada pela Marinha dos Estados Unidos, iniciando sua carreira no Campo de Provas Navais de Dahlgren, na Virgínia.
Naquele período, ainda no início da Guerra Fria, ela integrou um pequeno grupo de mulheres que trabalhavam com computação e matemática avançada para os militares. Esse grupo teve papel decisivo na evolução de sistemas de navegação e rastreamento.
Contribuições científicas decisivas
Ao longo da carreira, Gladys West participou de projetos científicos altamente complexos. Nos anos 1960, integrou um estudo astronômico premiado que analisou o movimento de Plutão em relação a Netuno, contribuindo para avanços na compreensão do sistema solar.
A partir da década de 1970, seu trabalho se concentrou em algoritmos matemáticos avançados capazes de calcular variações gravitacionais, marés e irregularidades na forma da Terra. Esses cálculos eram essenciais para criar modelos precisos do planeta.
West programou o computador IBM 7030, um dos mais avançados da época, para gerar dados cada vez mais detalhados sobre o formato da Terra. Esses modelos se tornaram a base matemática das órbitas usadas pelos satélites do GPS.
O legado por trás da tecnologia cotidiana
Embora o GPS tenha sido inicialmente desenvolvido para fins militares, ele se tornou parte essencial da vida moderna. Aplicativos de navegação, serviços de entrega, agricultura de precisão, aviação civil, logística global e até operações de resgate dependem diretamente da precisão matemática construída por West e seus colegas.
Seu legado mostra que avanços tecnológicos revolucionários muitas vezes começam de forma silenciosa, em salas de pesquisa, muito antes de chegarem ao cotidiano das pessoas.
Reconhecimento tardio, mas histórico
Por muitos anos, o trabalho de Gladys West permaneceu pouco conhecido fora dos círculos acadêmicos e militares. Apenas décadas depois ela passou a receber reconhecimento público mais amplo, sendo celebrada como uma das grandes responsáveis pela criação do GPS.
Esse reconhecimento tardio também trouxe à tona discussões sobre a sub-representação de mulheres e pessoas negras na história da ciência e da tecnologia, reforçando a importância de valorizar trajetórias que ajudaram a moldar o mundo moderno.
Uma vida que ajudou a mudar o mundo
Gladys West morreu cercada por familiares e amigos, segundo comunicado divulgado pela família. Sua história permanece como símbolo de perseverança, talento e impacto científico duradouro.
Mesmo sem ter imaginado a dimensão de sua contribuição, seu trabalho segue vivo em cada rota traçada por um aplicativo, em cada satélite em órbita e em cada decisão que depende de localização precisa. A “mãe do GPS” deixa um legado que continuará guiando o mundo por muitas gerações.
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