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Entre a Glória Recente e o Alerta Atual: Autossuficiência Vira Debate no Flamengo de 2026

Entre a Glória Recente e o Alerta Atual: Autossuficiência Vira Debate no Flamengo de 2026

Pouco mais de dois meses depois de dominar o continente, o Flamengo vive um início de temporada cercado por incertezas. Campeão da Libertadores e do Brasileirão no fim de 2025, o clube agora convive com vaias, cobranças nas arquibancadas e uma sequência de partidas sem vitória que reacendeu discussões profundas sobre postura competitiva e intensidade dentro de campo.

O empate diante do Internacional, no Maracanã, funcionou como catalisador do desconforto. O resultado por 1 a 1 expôs um time menos agressivo na marcação, mais lento na circulação da bola e distante do padrão que o transformou em referência no futebol sul-americano meses atrás.

De supercampeão a alvo de cobrança

O contraste chama atenção. Em dezembro, o Flamengo encerrava a temporada empilhando troféus; em fevereiro, ouvia gritos por mais entrega. A transição brusca de cenário incomodou a torcida, especialmente porque o elenco foi reforçado e manteve boa parte da base campeã.

Sob o comando de Filipe Luís, a equipe apresentou novamente dificuldades no primeiro tempo contra o Inter. Faltaram conexões ofensivas, sobrou espaço para o rival e a recuperação da bola ocorreu com lentidão. Somente após alterações na segunda etapa o time ganhou fôlego, criou chances reais de virar a partida, mas sem conseguir transformar o volume em vitória.

Oscilações individuais preocupam

Além dos problemas coletivos, nomes importantes oscilaram. Bruno Henrique e Arrascaeta apareceram pouco, enquanto Lucas Paquetá errou além do habitual. Para um elenco acostumado a decidir partidas em momentos-chave, a queda de rendimento técnico amplia a sensação de alerta.

A análise interna aponta que parte do problema está ligada ao desgaste acumulado. Em 2025, o Flamengo disputou sete competições, estendeu a temporada até meados de dezembro por causa da Copa Intercontinental e ainda precisou antecipar o uso do time principal neste início de ano após tropeços da equipe sub-20 no estadual.

Calendário pesado não é exclusividade

Embora o argumento físico seja real, dirigentes e analistas lembram que rivais passaram por situações semelhantes. O Corinthians, por exemplo, terminou a temporada passada ainda mais tarde por causa da final da Copa do Brasil e, mesmo assim, venceu o Flamengo na Supercopa. Já o Fluminense fez mais jogos ao longo de 2025 e também conseguiu superar o rival no Carioca.

Essas comparações reforçam que o desgaste explica parte do quadro, mas não tudo. A crítica central gira em torno da intensidade competitiva — exatamente um dos pilares que sustentaram a hegemonia rubro-negra no ano anterior.

O risco da autossuficiência

Dentro do clube, cresce a percepção de que o maior perigo neste começo de temporada é a sensação de superioridade natural. Em 2025, o Flamengo construiu seu sucesso com um “combo” poderoso: talento individual elevado, organização coletiva e pressão constante na retomada da bola. Agora, esses ingredientes parecem diluídos.

Há quem enxergue resquícios desse comportamento ainda no ano passado, quando o time, em determinados momentos, diminuía o ritmo confiando que resolveria o jogo a qualquer instante. Discursos otimistas de dirigentes, exaltando poder financeiro e ambição continental, também são citados como combustível involuntário para esse relaxamento competitivo.

Lideranças como antídoto

A comissão técnica aposta na experiência do próprio Filipe Luís e de atletas rodados para corrigir a rota. Nomes como Danilo, Alex Sandro e Jorginho são vistos como vozes importantes no vestiário, capazes de identificar falhas de postura e cobrar retomada de intensidade nos treinos e nos jogos.

O entendimento predominante é que ainda é cedo para diagnósticos definitivos. O elenco segue forte, a estrutura permanece sólida e há confiança de que a equipe reencontrará estabilidade com a sequência da temporada.

Entre alerta e expectativa

O Flamengo de 2026 vive, portanto, um momento de transição delicado: sai do pedestal de supercampeão para encarar questionamentos que exigem respostas rápidas. A queda de rendimento, combinada ao peso do calendário e à pressão externa, forma um cenário que testa maturidade e foco competitivo.

Nos bastidores, a avaliação é de que ajustes físicos, correções táticas e, sobretudo, uma mudança de atitude podem recolocar o time nos trilhos. Se a intensidade que marcou o ano passado for recuperada, dirigentes acreditam que a temporada ainda pode terminar com novas conquistas.

Por ora, porém, o início irregular serve como lembrete incômodo: no futebol de alto nível, a maior ameaça para quem acabou de vencer tudo pode não vir do adversário — mas da tentação de achar que a vitória continuará chegando por inércia.

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